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MATERNAção indica As Primeiras (2024)

há 2 horas
4 min de leitura


Foto: reprodução da internet
Foto: reprodução da internet

Ficha técnica:


Título: As Primeiras

Ano: 2024 · 78 minutos

 

Direção: Adriana Yañez

Duração: 78 min

 

Classificação indicativa: 12 anos Gênero: Documentário País de origem: Brasil 


Sem saber, muito se faz. E o mais que se quer poder é, depois do feito, dizer que fez. Quem diz, o faz pra alguém. A história que nos conta chega pela boca dos outros antes mesmo da nossa existência, e segue, aumentada em pontos, a nos amarrar em nós. Incluídas na história do futebol brasileiro, as protagonistas do filme indicado, As Primeiras, produzem, com suas trajetórias, pertencimento para além da que é dada pelo Estado da lei naturalizada das coisas.


Eis o que nos humaniza sem nos homenizar. Há quem diga que os ventos dos tempos de agora misturam coisas que nunca se juntaram, como mulher e futebol. Mas quem diz? Desde quando se viu? Viu tudo o que foi ou só o que se quis mostrar?


O Brasil tem sua identidade nacional e internacional vendida como o país do samba e do futebol. Papo hegemônico de sudestinidade desinformada, que serve a interesses econômicos e transforma manifestações culturais em recursos comercializáveis, produzindo uma hierarquia excludente das culturas populares da margem, para além do samba e do futebol. O mesmo papo determina o quinhão das mulheres nesse pedacinho de território simbólico. Elas sambam, cantam, cozinham e servem, enquanto os homens tocam os instrumentos, as mulheres, o que elas produzem do trabalho reprodutivo, a bola, e o que mais puderem alcançar.


Mas aqui não gavião. As mulheres desse filme causaram, saíram do lugar de objeto e partiram para sujeitar a bola e suas adversárias. Disruptura grave e definitiva causamos a toda determinação da qual não participamos da deliberação. Num país capitalista, racista e misógino, caminhamos sobre essa faixa muito estreita de areia, a sobra para quem não faz do centro seu sentido de vida. Tem que ficar ligada? Tem que ficar ligada, se sabe “camarão que dorme a onda leva”. Mas é justamente essa saída pra fora da curva, progressista, que produz mulheres dissidentes o suficiente para compor a equipe que desafiou as fronteiras do que se permitia às mulheres no país do futebol.


O filme recupera um pedaço da história do futebol brasileiro que quiseram esquecido. Deixa isso pra lá, se não aumenta a concorrência. Mulher, sabe como é, se der confiança se acha. Mulher só se perde quando dão fuga da nossa dignidade humana, na força. Era 1991, e a seleção brasileira disputou a primeira Copa do Mundo Feminina oficial da FIFA. Três anos antes, em 1988, uma equipe brasileira já havia participado do torneio experimental organizado pela entidade, na China. Essas mulheres participaram da retomada do futebol feminino no Brasil, inclusive em sua dimensão institucional, depois de décadas de proibição.


Por aqui, o futebol era, e ainda é para muitos e muitas, considerado impróprio à natureza feminina. Talvez, somente talvez, das mulheres que quiseram acreditar na versão da vulnerabilidade como resposta a promessas de proteção e cavalheirismos, que nunca saíram dos papéis mais cafajestes que os homens têm por tradição repetir. Talvez impróprio à natureza das mulheres imaginárias dos homens que resolviam tudo entre si, por si e para garantir que nada de valor na cultura passasse para o lado delas. Todos falharam e falharão miseravelmente.


Era 1986, e teve competição no Mundialito de Jesolo, na Itália, pelo Radar/Pão de Açúcar. O Esporte Clube Radar, de Copacabana, no Rio de Janeiro, havia organizado, no início dos anos 1980, uma das equipes femininas de futebol de campo mais fortes do país. A equipe participou de competições internacionais antes de o futebol feminino conquistar reconhecimento institucional mais consistente. Representar o Brasil não significava, necessariamente, ser reconhecida como seleção brasileira. A história se faz dessas diferenças, quem joga, quem autoriza, quem reconhece e quem registra.


Importantíssimo notar que eram tempos de abertura política, de fim da ditadura. Talvez, só talvez, essa vibe de transformação progressista tenha produzido condições para tensionar pilares da nossa organização social, como a divisão do trabalho por gênero e raça. Movimentos feministas, negros e outros movimentos sociais já questionavam essas estruturas havia décadas, no Brasil e fora dele, produzindo ecos, alianças e disputas. É na democracia e em seus processos que, por ora, caminhamos para formas menos excludentes de participação da vida pública. É nela que se pode posicionar melhor contra os retrocessos, se lançar ao trabalho de transformar luto em luta.


A existência dessas mulheres, o modo como contam suas histórias, os sentidos que dão às próprias escolhas, suas glórias e desenganos acontece e marca cada uma que viveu aqueles tempos e quem vive agora e pode escutá-las. Há um brilho guardado no rabo de olho de quem teve coragem de sair pra ver o que tinha lá fora, o que tornaram proibitivo a si e às suas. O brilho desse olhar, pra quem tem olhar de ver, intriga, e pra que vê e reconhece, irmana. Ela transgrediu e viveu pra contar. Fortalece.


Rico que é esse filme, possibilita irmos além das questões de gênero, chegando à classe social. Que povo tu conhece que inventa com o que não tem? A periferia, o subúrbio carioca, um mundo de caos ordenado pela ordem do impossível. O filme reúne essas mulheres décadas depois de tudo que aconteceu, para relembrar a experiência de jogar pelo país nos anos 1980 e 1990.


Acompanhamos um pedacinho de suas rotinas atuais, o envelhecimento, os caminhos profissionais e o vínculo que as une entre si e nesse mundo. Há histórias sobre quem as patrocinava e por quê, sobre o afastamento das famílias, sobre os relatos de exploração e de dinheiro que não chegou às mãos de quem jogou. Sobre como representaram as mulheres do seu país apesar de tudo e quanta coisa havia dentro desse tudo, sobre o que aconteceu quando tudo acabou. Até os dias de hoje.


Tem que ver o filme.

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