Entre inúmeros cigarros-pausa, um cemitério de textos não finalizados
- Mithaly S. Corrêa

- há 1 dia
- 3 min de leitura
Dia 11 de abril de 2026, 10h da manhã de sábado.
Esse texto deveria ser uma sessão de terapia, mas na verdade, no dia da minha última sessão - não realizada - eu acordei quebrada.
Tinha passado a noite anterior no hospital acolhendo um outro ser humano, o que me fez acordar cheia de demandas não cumpridas e o que também me fez escolher entre as cumprir ou cuidar de mim mesma.
E vem sendo difícil me perceber, quando passo o dia ou no trabalho, ou olhando para o outro, buscando sempre antecipar os imprevistos para que as coisas que não previ não virem bolas de neve.
Mas não vou mentir, tem alguns dias que me sinto uma super mulher, porque dou conta da pesquisa e dos inúmeros trabalhos voluntários e involuntários os quais venho tocando diariamente.
Mas em outros me sinto só, engolida e triturada pelos leões da academia que se juntam a todos os bichos da savana para mastigar cada um dos meus ossos.
Há altos e baixos e vou sobrevivendo a cada um deles, passo por passo.
Por vezes me sinto evoluindo, crescendo, alcançando meus objetivos, até tropeçar numa pedra que deixaram no meio do caminho, quebrando a última caneca de café sobrevivente da casa. Uma casa feita de cacos de canecas quebradas, daquelas que a gente ganha em uma palestra chique e que nos faz sentir por alguns minutos especial.
Falando em palestras, ainda tem quem me queira ouvir - ou me ler? As vezes me questiono.
E enquanto escrevo, em um sábado às 10h e pouca da manhã, fumando um cigarro-pausa, os pensamentos vão surgindo me cobrando todas as coisas que preciso resolver em um final de semana antes da rotina segunda-sexta retornar.
No meio da escrita, uma das crianças acorda com fome e mais alguém com senso de urgência me chama, e deixo, pela 4 vez, o texto incompleto descansar no bloco de notas.
Retorno pensando: ainda tem quem queira me ouvir - ou me ler?
Sem resposta, penso que só retornar ao texto já é algo importante, levando em conta que meu bloco de notas é um cemitério de textos incompletos que não tiveram a sorte do meu retorno, nem ao menos receberam uma flor fúnebre como lembrança de suas existências.
Enquanto isso, o relógio continua a trabalhar, na certeza de que em alguns minutos serei chamada novamente e que não ganhei ainda canecas suficientes, apesar de parecer que sou uma pessoa importante por quase todo o tempo.
E nesse rolé, me distraíram um tanto que me perdi nos pensamentos, mas voltei só pra não enterrar mais um texto, como fiz com os demais. Isso demonstra que ainda tenho certa empatia pelos meus escritos.
“É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte…” começa a tocar no aparelho celular de um dos meus adolescentes, que incrivelmente já está de pé a essa hora da manhã, anunciando o que, dentro de mim, parece óbvio.
E do fundo da casa escuto: “Mãe, como eu vou tomar banho se não tem shampoo nem sabonete”? Me recordando de mais uma coisa que preciso resolver, afinal, não fui ao mercado durante a semana.
Então, munida de tantas novas demandas, com o cigarro-pausa apagado pelo vento e o café frio na caneca quebrada, escrevi o que deu pra escrever e a fila do mercado me espera.
E o texto que escrevi ganhou a esperança de que, talvez, ainda exista alguém que queira me ouvir - ou me ler.
E ficou feliz, pois percebeu que não precisará de uma lápide, pois ele está vivo.
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