MATERNIDADES SOLO, BOLSA FAMÍLIA E FEMINIZAÇÃO DA POBREZA
- Luana Fontal
- 29 de mai.
- 6 min de leitura
A recente declaração do bilionário Luciano Huck sobre o Bolsa Família, ao afirmar que “não há estímulo para sair do programa”, reacendeu um debate recorrente sobre pobreza no Brasil. Ao sugerir que famílias beneficiárias buscariam formas de permanecer dependentes do auxílio estatal, sua fala recupera o que há de mais ignorante e primitivo sobre os programas de transferência de renda no país.
“O prefeito da cidade de Senhor do Bonfim tem 56% da sua economia no
Bolsa Família. O que acontece? Você não gera nenhum tipo de estímulo para
que as famílias queiram sair do Bolsa Família. Na verdade, elas criam atalhos para
conseguir ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social, ad eternum.
A gente precisa criar um estímulo. Como é que você motiva a família que precisa,
necessita do Bolsa Família, a ter vontade de querer sair desse programa?”. Falou.
O argumento desconsidera que a pobreza brasileira está diretamente ligada à precarização do trabalho, à informalidade e à extrema concentração de renda, sendo que desta última o desquerido conhece muito bem. Em um país profundamente desigual, a sobrevivência cotidiana de milhões de famílias não pode ser reduzida a uma suposta falta de esforço pessoal, essa é potoca velha.
Conceitos como a feminização da pobreza (Karoline França; Francisco Neto, 2017) pode nos ajudar a aprofundar essa reflexão: consiste no modo como mulheres são atingidas de maneira desproporcional pela precariedade econômica, tanto pela desigualdade salarial quanto pela sobrecarga histórica do trabalho de cuidado. Além de ocuparem os postos mais instáveis e mal remunerados, mulheres continuam sendo responsabilizadas pela criação dos filhos, pela administração da casa e pela manutenção afetiva da família. A pobreza, portanto, é produzida por relações de gênero, raça e classe que organizam interseccionalmente quem sofrerá os maiores níveis de vulnerabilidade.
Nesse cenário, o Bolsa Família opera como mecanismo mínimo de proteção social diante da insuficiência estrutural da renda. A ideia de que o programa produziria “acomodação” também é desmentida pelos próprios dados oficiais. Um estudo realizado pelo Ministério do Desenvolvimento Social em parceria com a Fundação Getúlio Vargas demonstrou que cerca de 70% dos adolescentes pertencentes a famílias beneficiárias em 2014 deixaram de depender do programa ao longo da última década. Entre jovens de 15 a 17 anos, a taxa de saída ultrapassou 71%, acompanhada do aumento da inserção no mercado formal de trabalho e da saída do Cadastro Único. Os dados indicam que políticas de transferência de renda reduzem desigualdades intergeracionais e ampliam possibilidades concretas de permanência escolar, alimentação e mobilidade social.
O problema da fala de Luciano Huck, no entanto, não está apenas em sua frágil argumentação diante da realidade social brasileira (afinal basta meia dúzia de estatísticas para escancarar a sua ignorância econômica), mas no tipo de representação que ela ajuda a disseminar.
Embora a declaração não tenha sido feita na televisão aberta, ela reflete posicionamentos que ganham legitimidade justamente pela enorme influência pública construída nesses espaços. A televisão aberta – apesar de ter perdido força com o desenvolvimento da Web – ainda possui forte alcance popular e participa ativamente da formação do imaginário coletivo. Quando figuras públicas associam pobreza à acomodação, reforçam estigmas históricos alimentando discursos moralizantes que se espalham rapidamente em tempos de disputa ideológica intensa (vulgo ano de eleição).
O excerto transcrito acima expressa uma lógica de governamentalidade em que políticas sociais operam como mecanismos de regulação das condutas. Ao sugerir que famílias precisam ser “motivadas” a sair do Bolsa Família, o discurso desloca a pobreza de uma questão estrutural para um problema de comportamento individual supondo a leitura do benefício através de expectativas de produtividade e autossuficiência.
No meio de tudo isso, a mãe beneficiária deixa de ser percebida como trabalhadora precarizada inserida em relações históricas de exploração e passa a ser (brutalmente) representada como sujeita dependente. É uma equação capitalista e patriarcal onde toda a sobrecarga e a responsabilidade do sistema são apagadas. Esse deslocamento simbólico produz efeitos materiais: legitima a culpabilização da pobreza e intensifica formas de vigilância moral direcionadas às mulheres pobres. É uma teia discursiva cruel: tiram suas possibilidades de bem-viver de forma estrutural; ela é então inserida num programa para não-morrer devido essa ausência de cidadania e; por fim, é estigmatizada por utilizar esse programa.
É precisamente nesse ponto que as contribuições de Patricia Hill Collins e Michel Foucault se encontram. Em Mammies, matriarcas e outras imagens de controle, Collins (2019) demonstra como sociedades racialmente hierarquizadas produzem representações estereotipadas de mulheres negras e pobres para justificar desigualdades sociais. Já Foucault ([1979] 2008) permite compreender que esses discursos não operam apenas no nível simbólico (não existe violência que se limite ao simbólico): eles funcionam como tecnologias de poder que organizam modos de ver, julgar e administrar populações.
As imagens de controle podem ser lidas, portanto, como dispositivos discursivos que produzem subjetividades específicas como a mãe irresponsável, a mulher dependente e a beneficiária suspeita, tornando socialmente aceitável a vigilância moral sobre mulheres pobres. Trata-se então de dar um rosto e produzir uma culpa pela pobreza, além de governá-la através de regimes de verdade que individualizam problemas estruturais e disciplinam corpos femininos, racializados e periféricos.
Uma dessas imagens é a da mulher pobre acomodada ou preguiçosa, construída como alguém sem ambição, dependente do Estado e avessa ao trabalho. Collins mostra que essa representação atua como mecanismo ideológico de gestão da pobreza, ocultando fatores estruturais como desemprego e racismo. Outra figura central é a da matriarca, que transforma mães solo em responsáveis pela desorganização familiar e pela reprodução da miséria. Nesse enquadramento, problemas produzidos historicamente pela desigualdade social como abandono paterno, a ausência de políticas públicas e a precarização da vida permanecem invisibilizados.
Essa lógica também depende da invisibilização do trabalho de cuidado. A racionalidade meritocrática reconhece apenas o trabalho formal e assalariado como atividade economicamente legítima, apagando o enorme volume de trabalho reprodutivo realizado diariamente por mulheres: cozinhar, limpar, alimentar, cuidar dos filhos, administrar escassez e sustentar emocionalmente a vida doméstica. Ao mesmo tempo, beneficiárias de programas sociais são constantemente submetidas à suspeita pública: precisam provar que trabalham, que merecem assistência e que não estão “se aproveitando” do sistema ou “fazendo filhos para receber benefícios”.
Curiosamente, a dependência estrutural das elites em relação ao Estado por meio de subsídios, incentivos fiscais e privilégios econômicos, raramente é tratada sob o mesmo registro moralizante.
Defender o Bolsa Família, nesse sentido, significa reconhecer que nenhuma autonomia é possível sem condições materiais mínimas de existência. Em um país atravessado pela desigualdade estrutural, políticas de transferência de renda funcionam como instrumentos fundamentais de proteção social, especialmente para milhões de mulheres que sustentam sozinhas a reprodução cotidiana da vida. Trata-se de uma disputa discursiva diante da qual precisamos, tanto quanto eles, tomar conhecimento dos termos para nos armar contra aquilo que nos vulnerabiliza.
Por isso, é fundamental estarmos atentas ao modo como esses discursos circulam, sobretudo em um contexto de ano eleitoral, em que disputas ideológicas tendem a se intensificar nas redes sociais. Narrativas sobre pobreza, mérito, assistência social e “dependência” frequentemente são mobilizadas não para um jogo desonesto de indignação moral, polarização e controle simbólico sobre determinados grupos sociais.
Gostaria de estar aqui falando do quão incoerente é um bilionário? Não. Sou mãe solo pobre, autônoma, chefe de família e tenho muito trabalho a fazer. Mas em meio à velocidade dos algoritmos e à circulação massiva de desinformação, esse debate me pegou bem quando as batalhas da semana estavam me escolhendo...fiquemos atentas, outubro está logo ali.
Refêrencias:
AGÊNCIA IBGE NOTÍCIAS. Censo 2022: 19,2 milhões de pessoas vivem fora de sua região de nascimento. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: ttps://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43815-censo-2022-19-2-milhoes-de-pessoas-vivem-fora-de-sua-regiao-de-nascimento. Acesso em: 25 mai. 2026.
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução de Jamila Dias e Sofia Parigi. São Paulo: Boitempo, 2019.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, [1979] 2008.
FRANÇA, Karoline Veiga; VERAS NETO, Francisco Quintanilha. Feminização da pobreza: perspectivas pluralista e intercultural. Captura Críptica: direito, política, atualidade, Florianópolis, v. 6, n. 1, p. 107-121, 2017.
SANTOS, Felícia; CORSEUIL, Carlos Henrique. Os efeitos do Programa Bolsa Família sobre a frequência escolar das mães adolescentes beneficiadas. Rio de Janeiro: Ipea, maio 2019.
SILVA, Angélica Lima; PIRES, André. O Programa Bolsa Família: percepções de mães beneficiárias sobre educação e a possível construção de uma vida nova para seus filhos. Comunicações, Piracicaba, ano 22, n. 1, p. 7-25, jan./jun. 2015.
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