top of page

O problema do colo vazio

Ser mulher, feminista e pesquisadora é estar constantemente atenta às estratégias do patriarcado e do capitalismo para te usar como instrumento de cuidado e de trabalho reprodutivo. É nesse contexto que tenho me sentido provocada a analisar uma questão que ecoa todos os dias na minha vida de “mulher sem filhos”. Primeiramente porque a ausência dessa maternidade me é lembrada a cada entrevista de emprego como algo positivo, mas na maioria das rodas sociais como uma grande deficiência no meu corpo feminino, pois assim como um braço amputado ou uma perna amputada a sociedade vê a minha ausência de filhos como algo a que está faltando em mim, algo que foge a minha “natureza feminina” e que me faz uma mulher inferior às outras.


Bem, não estou dizendo que não ter filhos não interfira na minha experiência feminina, afinal estou há mais de 10 anos enfatizando como a maternidade impacta na vida das mulheres e adiciona desafios cotidianos na autonomia da mulher que está sempre sendo convidada a ser mãe acima de qualquer coisa. O que enfatizo aqui é que não há superioridade entre as mulheres - até porque todas nós somos inferiorizadas pelo machismo - mas que há experiências diferentes, em que a maternidade impõe sim dificuldades características dentro da categoria mulher.

Aqui considero como mulheres sem filhos tanto as mulheres adultas que não desejaram engravidar ainda, mas que planejam quanto aquelas que por decisão própria (ou imposição biológica) decidiram não ter filhos.


Dentre as vivências que tenho tido e compartilhado com outras mulheres, com e sem filhos, tenho observado como mesmo dentro das mães mais impactadas pela maternidade o velho discurso da “maternidade salvadora”(que resolverá todas as suas angústias) ainda impera nos nossos ciclos sociais. Sem a menor cerimônia, nos sentimos à vontade para perguntar para a mulher sem filhos quando ela vai ter um bebê e aí uma enxurrada de argumentos românticos surgem para convencê-la de que - apesar de todas as queixas das mulheres-mães - ter filhos vai te salvar da ansiedade, da depressão, da desorganização, dos problemas do casamento, do mal comportamento do companheiro, do tédio da aposentadoria dos seus pais, etc.


Enquanto equilibramos pratos para não ofender os familiares e amigos que insistem em nos impôr a maternidade, vamos tentando defender nossa autonomia reprodutiva. 


Por outro lado temos o segundo discurso, o discurso punitivo que te condena por não ter filhos. Dentre os adjetivos mais vis, temos “egoísta” como um grande campeão das ofensas contra aquelas que não são mães, especialmente aquelas que decidiram definitivamente não se tornarem mães. E é na punição a esse “colo vazio” que a sociedade nos traz diversas imposições.


O “colo vazio” é visto pela sociedade como um grande problema, que deve ser resolvido com urgência, afinal na sociedade capitalista nós somos pressionadas a sermos máquinas de produção constante que só possuem o direito de dormir porque o sono mantém o corpo trabalhando no dia seguinte. Assim, a tendência é que esse colo seja preenchido com o trabalho do cuidado com o outro, pois entende-se que se você não tem filhos você está constantemente livre e disposta.


 Nas entrevistas de emprego entende-se que esse “colo” que não está ocupado com uma criança pode ser ocupado com o trabalho, com a empresa, com prazos abusivos, com condições péssimas de trabalho. Na universidade o “colo vazio” é um problema para o currículo, afinal no seu colo deve sempre estar um novo artigo, um novo projeto, a orientação de um bolsista, um cargo de gestão que ninguém quer ou uma apoio a quem está com o “colo ocupado”. Na família o colo tende a ser requisitado para cuidar de familiares doentes, idosos, pessoas com deficiência, crianças e até mesmo com trabalho doméstico, tudo de forma gratuita para que a família economize com contratação de profissionais qualificados, e porque o colo vazio faz de você uma “desocupada”.


É aí que a ética do cuidado de Carol Gilligan nos ilumina o motivo de nos sentirmos angustiadas ao não cuidar de alguém, pois nós mulheres somos socialmente condicionadas para compreender de que o “certo” é preencher esse colo com o cuidado com o outro, mesmo que isso nos custe caro, como quando custa a nossa saúde física e mental. O enraizamento desta lógica é tão profundo na sociedade que dificilmente alguém defenderia o “vazio” no seu colo, a sua necessidade de deixá-lo “vazio” ou de preenchê-lo com as suas próprias necessidades. 


E assim seguimos, com colos cheios de demandas, de cuidados com terceiros… afinal, você não tem filhos e se não tem filhos, a sociedade entende que você precisa ter.


 
 
 

Comentários


Logotipo do Núcleo Materna: “Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade”, com fundo branco, e ícone de livro aberto

©2019 by Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade - MATERNA

bottom of page