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TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO

Assisti ao premiado “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo” sem qualquer pretensão de encontrar nele o tanto de teoria feminista que encontrei. O que inicialmente me capturou foi outra coisa: a promessa do absurdo, dos multiversos, das rupturas temporais, dessa estética quase delirante que mistura ficção científica, humor e caos. Sempre gostei de narrativas que brincam com universos paralelos e possibilidades infinitas da existência. Assisti ao filme numa tarde comum, ao lado dos meus filhos e do meu companheiro, esperando apenas me divertir diante de uma história excêntrica sobre realidades alternativas.


Mas, conforme os minutos avançavam, tornou-se impossível não sociologizar a obra. Quase involuntariamente, comecei a lê-la através das lentes do meu próprio repertório teórico e epistêmico sobre maternidade, gênero e relações familiares. O filme foi deixando de ser, ao menos para mim, apenas uma narrativa sobre universos múltiplos e se transformou, diante de meus olhos e dentro da minha mente, em uma espécie de cartografia emocional das mães e filhas, que se pegam dentro de uma realidade onde mulheres que vivem esmagadas entre cuidado, culpa, expectativa e sobrevivência. E talvez seja justamente essa a potência mais perturbadora dessa obra, que passou batida dos olhos atentos e sedentos dos críticos de cinema. Sob o excesso visual, o barulho e a aparente desordem, existe uma intimidade dolorosa, silenciosa e profundamente reconhecível para muitas mulheres.


"Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" (filme dirigido por Daniel Kwan e Daniel Scheinert, lançado em 2022) foi construído, sob a aparência de um espetáculo caótico e hiperbólico, uma narrativa profundamente íntima sobre vínculos familiares, transmissão psíquica e conflitos geracionais entre mulheres. Para além da estética do multiverso e de sua linguagem fragmentada, o filme se sustenta como uma reflexão densa sobre a relação mãe-filha, cujo qual escolho ler, de forma particularmente fecunda, à luz das contribuições de Nancy Chodorow¹ , contribuições de Nancy Chodorow sobre reprodução da maternidade e identificação materna, articuladas à noção de matrofobia formulada por Adrienne Rich².


Nancy Chodorow é uma psicanalista e socióloga feminista cujo trabalho ocupa lugar central nos debates sobre maternidade, identidade feminina e reprodução social. Em The Reproduction of Mothering, obra de referência incontornável, a autora analisa como a organização social da maternidade nas sociedades ocidentais modernas produz formas específicas de subjetivação, especialmente no que diz respeito às relações entre mães e filhas. Chodorow argumenta que a maternidade, socialmente atribuída às mulheres, estrutura uma relação de intensa identificação entre mães e filhas. Essa proximidade, que está, para autora, longe de ser apenas uma caracteristica afetuosa ou protetiva, gera uma ambivalência constitutiva, ou seja, para constituir-se como sujeito independente, a filha precisa diferenciar-se da mãe, mas essa diferenciação é vívida sob o signo do medo em repetir seu destino, seus limites, sua posição social e emocional, o que todo o cuidado em salientar ser uma leitura social da maternidade particularmente ocidentalizada. É nesse horizonte que a noção de matrofobia, desenvolvida por Adrienne Rich, torna-se particularmente fecunda para pensar as tensões entre mães e filhas analisadas por Chodorow.

A partir da compreensão de que as autoras não defendem que filhas não tem ódio da mãe, mas temor profundo de tornar-se ela (como elas) que se desdobra a presente resenha.

No filme, Joy (a filha), personagem interpretada por Stephanie Hsu, encarna de forma radical o impasse sobre “Matrifobia”. Sua recusa não se dirige apenas à figura concreta de Evelyn (a mãe), vivida por Michelle Yeoh, mas ao que ela representa enquanto mulher marcada pela renúncia, pelo cansaço e pela adaptação contínua às exigências da sobrevivência. A violência simbólica que atravessa a relação entre ambas é fruto da reprodução de uma estrutura psíquica na qual a maternidade, vívida de forma sobrecarregada e solitária, torna-se simultaneamente modelo e ameaçadora. Entre os muitos multiversos, Joy se torna a “filha-vilã” Jobo Tupaki. Aquela que tem a missão de eliminar Evelyn, a mãe.


Quando penso a transformação de Joy (a filha) à luz da maternidade e da relação mãe-filha, entendo como Jobu Tupaki (a filha-vilã) parece emergir justamente da ausência de um espaço seguro de reconhecimento subjetivo. Joy atravessa multiverso buscando uma forma de eliminar a “herança materna”. Ela não suporta e não aceita o peso de existir continuamente sob o olhar materno que tenta corrigi-lo, enquadrá-lo e elimina-lo. O multiverso intensifica aquilo que já estava presente na relação entre ambas: a fragmentação do eu.


Evelyn (a mae), por sua vez, expressa o outro polo analisado por Chodorow: a dificuldade materna de considerar a filha como um sujeito separado. Sua insistência no controle, na correção e na normatização de Joy não se dá, ao longo do filme, por ausência de afeto, mas pela impossibilidade de romper com uma lógica de continuidade psíquica que a própria organização social da maternidade produziu. A tensão entre mãe e filha, portanto, nessa perspectiva, rasga o véu geracional e expõe a base estrutural do conflito, revelando como uma maternidade pode operar como espaço privilegiado de transmissão de limites, frustrações e expectativas não elaboradas.


Me peguei, durante a exibição do filme, deslocando o plano geral, das repetidas viagens multidimencionais de Evelyn, para um drama íntimo. Me vi radicalizando a questão central formulada por Chodorow, que pergunta e questiona como uma mulher pode tornar-se sujeita sem viver a maternidade (e ter a figura materna) como destino significativo, único possível. Por isso, Joy/Jobu Tupaki não aparece, ao menos na minha leitura, como antagonista de Evelyn, mas quase como sua continuidade traumática. Ela é, em alguma medida, o produto extremo da transmissão intergeracional de silêncios, frustrações e impossibilidades femininas. O horror de Evelyn diante da filha talvez exista porque ela reconhece nela uma espécie de espelho distorcido de tudo aquilo que nunca conseguiu elaborar em si mesma, pois viveu a maternidade e o cuidado dentro de uma lógica patriarcal e capitalista.


Assim, "Tudo em todo lugar ao mesmo tempo", na minha percepção de pesquisadora da maternidade, de um retrato sensível da dificuldade histórica de mulheres que se diferenciam de suas mães em contextos onde a maternidade permanece como eixo central da identidade feminina conforme molde patrio-capitalista. Ao dialogar, ainda que indiretamente, com a noção de matrifobia formulada por Rich e a psicanalise da relação mãe-filha elaborada por Nancy Chodorow, percebo como o filme revela que o verdadeiro distúrbio não reside no multiverso e do caos, conforme proposto pelo diretor, mas na reprodução silenciosa de destinos maternos não escolhidos, e aponta, com delicadeza, para a possibilidade de transformá-los dentro de uma ética do afeto e do cuidado.


Recomendo assisti-lo com “olhos de ver”!





¹CHODOROW, Nancy. The reproduction of mothering: psychoanalysis and the sociology of gender. Berkeley: University of California Press, 1978.

²RICH, Adrienne. Of woman born: motherhood as experience and institution. New York: W. W. Norton & Company, 1976.

³ BOURDIEU, Pierre. Poder Simbólico. Tradução Fernado Tomaz), 7° edição, Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 2024

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