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Maternidade atípica e a exaustão: desafios entre o cuidar e o autocuidado

Existe um tipo de cansaço que não se repara apenas com uma boa e longa noite de sono. Ele se instala no corpo, na alma, nas decisões cotidianas, nas inúmeras pesquisas realizadas sobre terapias, dispositivos de assistência, medicações e pela frustração de ter o acesso a direitos dos filhos cerceados e/ou negados pelo sistema. Este cansaço negligenciado por alguns, é o da mãe atípica, cujo exercício de cuidado exige um repertório psicológico e emocional que nenhuma maternidade típica prepara, embora se reconheça a complexidade e os desafios característicos a todas as formas de maternar, obviamente.


A maternidade atípica é, antes de tudo, um realinhamento e reconstrução de expectativas. O enlutamento de desejos, sonhos e idealizações é um processo silencioso e de muitas camadas, e que muitas mães carregam sem conseguir nomear (simbolizar) e sem espaço para elaborar. Em meio a uma avalanche de consultas, laudos, documentos e disputas por vagas em escolas e clínicas, pouco sobra para sentir...E sentir, nesse contexto, quase parece um luxo.


A exaustão que emerge desse cotidiano não é fraqueza. É uma resposta natural a um sistema que ainda enxerga a mulher como principal, e muitas vezes a única, rede de suporte do neuroatípico. Com isso, a sobrecarga recai, de forma desigual, sobre as mães. São elas que, em sua maioria, interrompem carreiras, adaptam rotinas e tornam-se especialistas em condições que mal tinham ouvido falar antes do diagnóstico. Essa dedicação é real e necessária. Mas há um custo.

O autocuidado, palavra que soa quase irônica nesse contexto, não se trata apenas do cuidado estético ou da realização de técnicas de meditação matinais... embora ambos tenham sua importância para a saúde mental e emocional. Para a mãe atípica, essa prática pode começar a partir de ações cotidianas como ter com quem conversar, dormir sem culpa quando é possível, reconhecer que nutrir desejos e fazer coisas que gosta não é sinal de “egoísmo”. É aprender que cuidar de si não é negligenciar o cuidado do filho, é a condição essencial para que esse cuidado continue existindo.


O grande desafio da maternidade atípica está justamente nessa tensão social: a mãe que se doa integralmente acredita que parar, mesmo que brevemente, é faltar. No entanto, o esgotamento não poupa ninguém e, quando chega em sua forma mais severa, compromete exatamente o que ela mais quer proteger, a presença e o cuidado com a prole.


Falar sobre exaustão, autocuidado e maternidade atípica é também falar sobre a urgência do fortalecimento das redes de apoio reais que envolvem familiares e a comunidade e implica também em políticas públicas de suporte mais humanizadas e eficazes, que não deixem as mães solitárias na linha de frente. E além de tudo, é validar que a exaustão materna atípica não é sinal de amor insuficiente, mas sim fruto de um sistema que precisa admitir a complexidade e a seriedade que há no exercício de cuidado..




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