Quando a filha assume grande poder e grande responsabilidade
- Márcia do Valle

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Não me considero uma mãe controladora, mas é fato que venho sendo a responsável
pelas principais decisões relacionadas à minha filha desde seu nascimento. Sempre
defini seu colégio, as atividades extracurriculares, como seria seu deslocamento, e
tudo o mais que permeia nossa rotina.
Não costuma ser possível compartilhar a tomada de decisões com a rede de apoio.
Afinal, a responsabilidade pelas escolhas cabe aos responsáveis pela(o) menor.
Sendo assim, arcar sozinha com esse encargo costuma ser um dos motivos de
sobrecarga de mães solo.
Mesmo não sendo possível compartilhar essa função, com o passar do tempo passei a
ouvir e considerar cada vez mais as opiniões da principal parte interessada: minha
própria filha. Ainda assim, o posicionamento final seguia sendo meu. Efetivamente,
não somente sou a responsável financeira por ela, mas legalmente sua autonomia é
bastante restrita até atingir a maioridade.
Resumindo e parafraseando o Homem-Aranha: com grande poder, vem grande
responsabilidade. Logo, até que minha filha se tornasse capaz de assumir a grande
responsabilidade pela tomada das principais decisões, esse grande poder permanecia
comigo.
Até que ela concluiu o ensino médio e esse cenário mudou. A transição do colégio
para uma universidade (tomara!) não tem nenhuma semelhança com os processos
anteriores em que fiz suas matrículas para os segmentos anteriores. Dessa vez, não
tenho nenhum poder de decisão. Tudo depende, em primeiro lugar, das escolhas da
minha filha sobre seu futuro: onde e o que ela quer estudar? Depende também do seu
resultado nas provas de ENEM e de vestibulares específicos, o que também é
influenciado pelas prioridades dela. Enfim, os papéis se inverteram. O máximo que
posso fazer é esperar que ela me escute e considere minhas opiniões ao fazer suas
escolhas.
Provavelmente, essa é a primeira das muitas vezes em que não serei mais a
responsável pela tomada de decisões que envolvem minha filha. Tentando imaginar o
que vem pela frente, vislumbro somente situações em que ela assume esse papel. No
máximo, me consultando ou pedindo alguma ajuda. Por um lado, me percebo
desorientada nesse novo contexto em que não sou mais tão essencial ou necessária.
Por outro lado, concluo que estou caminhando na direção que sempre sonhei: me
tornar uma mãe desnecessária. Isto é, estou formando uma jovem capaz de construir
sua independência.
Voltando à frase do Homem-Aranha, me parece que chegou o momento para minha
filha assumir o grande poder e respectiva grande responsabilidade pelas suas
escolhas. Espero que ela me inclua na teia que está construindo a partir de suas
mãos.








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