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Quando a filha assume grande poder e grande responsabilidade

Não me considero uma mãe controladora, mas é fato que venho sendo a responsável

pelas principais decisões relacionadas à minha filha desde seu nascimento. Sempre

defini seu colégio, as atividades extracurriculares, como seria seu deslocamento, e

tudo o mais que permeia nossa rotina.


Não costuma ser possível compartilhar a tomada de decisões com a rede de apoio.

Afinal, a responsabilidade pelas escolhas cabe aos responsáveis pela(o) menor.

Sendo assim, arcar sozinha com esse encargo costuma ser um dos motivos de

sobrecarga de mães solo.


Mesmo não sendo possível compartilhar essa função, com o passar do tempo passei a

ouvir e considerar cada vez mais as opiniões da principal parte interessada: minha

própria filha. Ainda assim, o posicionamento final seguia sendo meu. Efetivamente,

não somente sou a responsável financeira por ela, mas legalmente sua autonomia é

bastante restrita até atingir a maioridade.


Resumindo e parafraseando o Homem-Aranha: com grande poder, vem grande

responsabilidade. Logo, até que minha filha se tornasse capaz de assumir a grande

responsabilidade pela tomada das principais decisões, esse grande poder permanecia

comigo.


Até que ela concluiu o ensino médio e esse cenário mudou. A transição do colégio

para uma universidade (tomara!) não tem nenhuma semelhança com os processos

anteriores em que fiz suas matrículas para os segmentos anteriores. Dessa vez, não

tenho nenhum poder de decisão. Tudo depende, em primeiro lugar, das escolhas da

minha filha sobre seu futuro: onde e o que ela quer estudar? Depende também do seu

resultado nas provas de ENEM e de vestibulares específicos, o que também é

influenciado pelas prioridades dela. Enfim, os papéis se inverteram. O máximo que

posso fazer é esperar que ela me escute e considere minhas opiniões ao fazer suas

escolhas.


Provavelmente, essa é a primeira das muitas vezes em que não serei mais a

responsável pela tomada de decisões que envolvem minha filha. Tentando imaginar o

que vem pela frente, vislumbro somente situações em que ela assume esse papel. No

máximo, me consultando ou pedindo alguma ajuda. Por um lado, me percebo

desorientada nesse novo contexto em que não sou mais tão essencial ou necessária.


Por outro lado, concluo que estou caminhando na direção que sempre sonhei: me

tornar uma mãe desnecessária. Isto é, estou formando uma jovem capaz de construir

sua independência.


Voltando à frase do Homem-Aranha, me parece que chegou o momento para minha

filha assumir o grande poder e respectiva grande responsabilidade pelas suas

escolhas. Espero que ela me inclua na teia que está construindo a partir de suas

mãos.

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