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Há um elefante branco na sala e nós precisamos falar sobre ele: por que as políticas de permanência para mães estão sendo destinadas a quem já tem privilégios?

Sim, há um elefante branco na sala — e nós precisamos falar sobre ele.

Convenhamos: o assunto maternidade, por si só, já gera debates incansáveis em lares, bares e nas redes. Sempre há alguém com algo a dizer, inclusive aqueles que nem filhos possuem.

Um dia desses, eu ouvi: — Ah, mas eu acho que você, como mãe, deveria fazer desse modo com a sua filha.

Pensei cá com meus botões: — Ué, mas eu nem pedi sua opinião.

E assim é sempre quando o assunto é maternidade. Sempre há alguém disposto a opinar. Seja sobre o tempo certo para alimentar o bebê, seja o professor que afirma que mulheres mães não devem ser “compensadas” pelo tempo que doaram — e abdicaram — de suas vidas e carreiras pelos filhos. Todos sempre têm algo a dizer.

Mas e quando se trata de maternidade e carreira?

Nós, mães trabalhadoras, estudantes, mães atípicas, mães típicas — mas, sobretudo, mães que sonham com sua formação e emancipação financeira — frequentemente pensamos: — Se essa política tivesse sido feita por uma mãe, seria diferente. Ou ainda: — Se tivessem chamado uma mãe para avaliar isso, seria completamente diferente.

Mas há um problema nessas falas. Um problema de classe. Um problema de raça.

Muitas das mulheres mães que adentram a graduação e a pós-graduação buscam algum tipo de auxílio financeiro para permanecer. Afinal, não é fácil equilibrar cuidados, estudos e trabalho. Algo nessa conta precisa fechar. Quando há bolsas disponíveis, pronto: um problema a menos — ainda que com os valores baixíssimos das bolsas de fomento no Brasil.

E então veio o programa Eclipse.

Uma política que parecia perfeita: uma nova iniciativa voltada para mulheres, com mães envolvidas, com laboratórios especializados em maternidade e universidade contribuindo, com nomes importantes na área. Uma política que tinha tudo para dar certo.

Mas, bem ali, havia um problema.

Um problema que faz a gente se perguntar: será que ninguém viu? Ninguém percebeu esse elefante?

Então, estou aqui para perguntar:

Qual é o real impacto de produzir uma política que beneficia apenas quem já é beneficiado?

Como chamar de inovação algo que deixa de fora uma parcela tão importante — as mães estudantes, inclusive as da pós-graduação?

Trata-se, fundamentalmente, de uma questão de classe e raça. Mulheres professoras, com salários superiores a 10 mil reais, que possuem alguma estabilidade financeira e, muitas vezes, rede de apoio — como mais um auxílio financeiro impacta suas vidas de forma significativa?

E mais: quem são as mulheres que conseguem alcançar a docência universitária em um país onde milhares de doutores estão desempregados? Dados recentes indicam que cerca de 25% dos doutores no Brasil estão sem emprego.

Eu, aqui, amamentando meu filho, me pergunto: a política pública não deveria ser o mais inclusiva possível? Por que destinar recursos justamente para quem já está inserido e protegido?

São muitas questões.

Será que estou exagerando — ou essa política apenas escancara que, mesmo nos espaços mais progressistas, mesmo entre aqueles que produzem e defendem essas pautas, os privilégios continuam sendo reproduzidos?


 
 
 

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