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Quem tem tempo para escrever?


É comum a ideia de que todas as pessoas dispõem das mesmas 24 horas diárias.


Em um dia de 24 horas, temos o tempo distribuído, geralmente, da seguinte forma:


  • 8 horas de trabalho remunerado

  • 8 horas de sono — ou pelo menos deveria ser, considerando as condições reais de vida, especialmente de mães.


Restariam, em tese, 8 horas disponíveis. No entanto, a distribuição social do tempo é desigual.



Dados do IBGE (PNAD, 2023) indicam que mulheres dedicam aproximadamente 21,3 horas semanais (3,04 horas por dia) ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas, enquanto homens dedicam cerca de 11,7 horas semanais (1,67 horas por dia).


Essa diferença expressa uma grande assimetria de gênero na distribuição do tempo, resultando em 9,6 horas semanais a mais de trabalho não remunerado para as mulheres.


A intersecção entre gênero, raça e classe contribui para a escassez de tempo que as mulheres enfrentam e agrava ainda mais essa situação. Segundo o IBGE (PNAD, 2023), mulheres negras têm maior participação nas tarefas domésticas e de cuidado, além de enfrentarem condições de trabalho mais precárias e frequentemente menos remuneradas.


Essas horas que não estão disponíveis poderiam ser destinadas a atividades como ler, estudar, escrever, cuidar da saúde física e mental, descansar ou ter lazer. No entanto, são consumidas por tarefas de cuidado com filhos, idosos, limpeza da casa, compras, organização da vida cotidiana...


Uma pessoa, para ler 30 páginas de um livro, por exemplo, geralmente precisa entre 1h30 e 3 horas de disponibilidade, considerando não apenas a leitura, mas também a absorção, a reflexão e, muitas vezes, a escrita.



Como questiona Anzaldúa (2000, p. 233):



No espaço acadêmico, essas diferenças tornam-se ainda mais evidentes. Embora as mulheres sejam maioria na pós-graduação, permanecem minoria nos níveis mais altos da carreira (PNPG, 2025; CAPES/MEC, 2024), representando apenas 35,5% das bolsas de produtividade no Brasil. Nesse esteio, mulheres negras seguem sub-representadas na academia (Gênero e Número, 2019), e a produção acadêmica feminina tende a apresentar descontinuidades, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade.


Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, verificou-se um aumento da produção acadêmica masculina e uma redução na produtividade das mulheres (FAPESP, 2020). Esse cenário evidencia quem estava assumindo, de forma ampliada, as tarefas domésticas e de cuidado enquanto a produção científica masculina se intensificava.


No capitalismo de lógica neoliberal, a produtividade é tratada como uma responsabilidade individual. A ideia de que todas as pessoas têm as mesmas 24 horas desloca desigualdades estruturais para o âmbito individual, atribuindo aos sujeitos a responsabilidade exclusiva pela gestão do seu tempo.



Nessa perspectiva, diferenças de produtividade entre homens e mulheres são frequentemente interpretadas como insuficiência individual ou incapacidade feminina, sustentando discursos como “os homens têm mais capacidade intelectual”, “mulheres e mães não deveriam fazer ciência” ou “a vida acadêmica não encaixa com a maternidade”.



Ainda assim, a distribuição do tempo está vinculada a uma rede de dispositivos que operam como engrenagens, normatizando corpos e organizando o cotidiano de forma generificada e racializada. Trata-se de uma lógica que produz controle, mantendo corpos úteis e dóceis (Foucault, 2014).


Mas ainda assim, nós não vamos ceder.


Porque, ainda assim, eu vou escrever?


Mesmo sob essas condições, a escrita persiste como uma prática de resistência. Como afirma Anzaldúa (2000):

Escrevo porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome […]”.

E escrever, nesse sentido, torna-se um gesto de vida, de registro, de desobediência:

“[…] Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência".

"Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.

Referências


ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229-236, 2000.


BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 (PNPG 2025-2029). Brasília, DF: CAPES, 2025.


BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Capes destaca diferença de gêneros na pós-graduação. Brasília, DF: CAPES, 2024.


BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Mulheres já são maioria nas bolsas de mestrado e doutorado, mas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade. Brasília, DF: MCTI, 11 fev. 2025.


FERREIRA, Lola. Menos de 3% entre docentes da pós-graduação, doutoras negras desafiam racismo na academia. Geledés – Instituto da Mulher Negra, 31 mar. 2019.


FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.


INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 11 ago. 2023.


PIERRO, Bruno de. Mães na quarentena. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, 19 maio 2020.

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