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Mulheres Mães Universitárias: "Nadando contra a Corrente"

Atualizado: 7 de nov. de 2025



Há pouco tempo, em uma entrevista para uma pesquisa com o tema da maternidade, me perguntaram como eu me sentia em relação à maternidade e à pressão de ser uma mãe perfeita, mesmo tendo que conciliar maternidade, trabalho e faculdade.


Respondi que não tento ser uma mãe perfeita, e sim uma mãe possível. Ser uma mãe possível tem tudo a ver com a batalha diária que eu, assim como muitas mulheres mães, travamos para conciliar nossas múltiplas jornadas. Ser mulher, mãe, trabalhadora, estudante e ainda assim ser perfeita como isso seria possível?


A mãe perfeita é aquela que se anula e se entrega à maternidade de tal forma que a mulher que antes habitava aquele corpo já não exista mais. Ela tem a casa impecável, o corpo saudável, os filhos comportados, arrumados e cheirosos, os horários bem divididos, os trabalhos em dia e o marido mimado. A mãe perfeita abdica da vida social e profissional para se dedicar inteiramente à maternidade. O filho de uma mãe perfeita nunca faria birra na rua nem se jogaria no chão.


Chegamos, portanto, ao ponto de compreender que a mãe perfeita é uma utopia utilizada para controlar os corpos femininos. Afinal, para ser uma mãe perfeita, é preciso deixar de lado nossos sonhos, nossas aspirações profissionais e nos dedicar inteiramente à maternidade.


Não à toa, quando nos tornamos mães, sentimos a pressão social de que devemos nos “comportar como mães” e, para isso, devemos deixar para trás comportamentos que não se encaixam nesse padrão. A partir da maternidade, tudo o que fazemos passa pelo crivo social e deve estar dentro dos limites do que é considerado aceitável, conforme o imaginário construído sobre o que significa ser uma boa mãe.


Talvez por isso o ponto mais difícil seja romper essa barreira e aceitar, apesar de toda a pressão contrária, que é possível ser mãe sem deixar de ser mulher em primeiro lugar. É por isso que sempre uso o termo “mulher mãe” quando me refiro à luta materna.


Se, para a sociedade, é inaceitável que uma mulher mãe erre, dentro da universidade isso não é diferente. Desde o início, uma estudante mãe é vista como um ser “errante”, pois não é socialmente aceitável que se seja mãe antes de se formar ou que, sendo mãe, essa mulher consiga conciliar a maternidade com outras aspirações pessoais além das socialmente aceitas, como cuidar da casa e dos filhos integralmente. Por isso, nossa capacidade profissional e intelectual é questionada diariamente. E, talvez por conta disso, o desempenho das mulheres mães, muitas vezes, é superior ao dos demais, já que precisamos nos esforçar o dobro ou mais para provar que somos capazes de estar naquele ambiente e agir de igual para igual.


Nós, mães, nos organizamos para que toda a rotina de estudos e trabalhos caiba no tempo que a maternidade nos permite. Quando existe uma rede de apoio, precisamos garantir que ela funcione e não nos deixe desamparadas. Desdobramo-nos para sair para um trabalho de campo, ou para passar em uma prova que quase toda a turma sem filhos e com tempo livre para estudar considera difícil. Além de tudo isso, ainda precisamos sustentar e criar uma ou mais crianças. É importante destacar o recorte das mães solo, que constituem a maioria das mães universitárias e enfrentam todas essas problemáticas sozinhas.


Se quiserem um retrato da mulher mãe universitária, imaginem uma mulher diante do computador, com uma criança dando cambalhotas ao lado e outra escalando suas pernas. Enquanto ela, concentrada, acaricia uma das crianças com uma das mãos e pede à outra que tome cuidado para não se machucar, digita com a outra um trabalho que precisa ser entregue até as sete da manhã seguinte um trabalho perfeito, dentro dos moldes acadêmicos.


Se fossem apenas essas as lutas das mães universitárias, talvez não estivéssemos tão mal, afinal, temos que conciliar a maternidade com qualquer outra atividade de nossas vidas. Mas a luta real é muito mais profunda. Além da rotina exaustiva das múltiplas jornadas, as universidades, em sua maioria, não oferecem a estrutura básica para que uma mulher mãe permaneça estudando e se integre plenamente àquele espaço. Falta empatia tanto por parte dos alunos quanto de grande parte do corpo docente. A pauta da maternidade também não é tratada com a seriedade que merece. Considerando que mães são, antes de tudo, mulheres, ao excluir as mães do ambiente acadêmico, excluímos também as mulheres e isso é gravíssimo.


Aí nos perguntamos: por que a luta da mulher mãe é tão invisibilizada e, muitas vezes, ignorada, inclusive entre os movimentos sociais? Porque ainda vigora a máxima “quem pariu Mateus, que o embale”, levada ao pé da letra por todos que não querem se comprometer com a problemática materna ou compreender suas dinâmicas sociais.


Assim, a luta materna é tratada como uma luta apenas de mães para mães. Mesmo em uma sociedade onde a paternidade é uma escolha e a maternidade, uma imposição, muitos insistem em afirmar que a maternidade e todas as suas consequências são apenas uma escolha individual.


Enquanto não inserirmos a pauta da maternidade compulsória nas discussões políticas, sociais, feministas e maternas, a maternidade continuará sendo tratada como uma escolha individual quando, de fato, não é. Métodos contraceptivos falham e, quando isso acontece, muitas mulheres não têm outra opção senão se entregar à maternidade ou arriscar a própria vida em um aborto clandestino, já que, em nosso país, o aborto ainda é criminalizado e não há, por ora, esperança de mudança na legislação a não ser para pior. Ainda assim, o abandono paterno é amplamente aceito e socialmente normalizado.


As universidades têm o dever de prezar pela permanência de seus estudantes, especialmente daqueles que pertencem a grupos vulneráveis como é o caso das mulheres mães, sobretudo as mulheres mães pretas e pobres. A interseccionalidade, nesse contexto, tem um peso enorme, pois as intersecções acentuam a problemática materna. Obviamente, uma mãe branca, com boas condições financeiras e uma ampla rede de apoio, sofrerá menos opressões do que uma mulher mãe preta, periférica e pobre, sem redes de apoio. Essa diferença é decisiva quando falamos em permanência universitária materna.


Segundo os dados do Perfil das Mães da UFRJ, levantados em pesquisa do Coletivo de Mães da UFRJ, mais da metade das alunas mães que responderam ao formulário já precisaram abandonar a universidade em algum momento por conta da maternidade. Além disso, 79% relataram queda no rendimento e 92% afirmaram que a universidade não atende às demandas referentes à maternidade. Não há dados oficiais sobre a evasão acadêmica dessas mães, pois as universidades não fazem levantamentos sobre o número de mães ingressantes. Todo o trabalho de pesquisa sobre essa problemática é feito pelos próprios coletivos, por meio de pesquisas internas e de núcleos independentes de estudos sobre maternidade.


As problemáticas universitárias vão muito além desses números. Elas se revelam na luta diária das mães dentro do espaço acadêmico. Há universidades onde, até pouco tempo, mães estudantes não podiam entrar no bandejão com seus filhos, perdendo assim o direito à alimentação. Em muitas instituições, tanto públicas quanto privadas, alunas mães são expulsas das salas de aula; em outras, precisam trocar seus bebês em cima das mesas, pois não existem fraldários disponíveis. Em quase todas, as mães são julgadas por ainda serem estudantes e escutam constantemente que “universidade não é lugar de criança”. Tudo isso constitui mecanismos de exclusão enfrentados diariamente pelas mulheres mães universitárias e que as instituições, em grande parte, ignoram ou toleram. Somadas às problemáticas inerentes à maternidade, essas barreiras transformam a luta das mães universitárias em uma verdadeira resistência pela permanência.


Ser mãe, hoje, é ser atacada por uma sociedade estruturalmente machista e patriarcal, por instituições que excluem as mães e negligenciam a permanência materna universitária, e também por parte do ativismo que enxerga a maternidade como fracasso ou erro muitas vezes usando o discurso da “não romantização da maternidade” como escudo para seus preconceitos. Além disso, ignora-se a pauta da maternidade compulsória, essencial em qualquer debate feminista.


Ser mãe é lutar contra a pressão social que tenta nos anular em nome de uma maternidade perfeita e utópica; é lutar pela autonomia dos corpos femininos, pelos nossos espaços de direito o que inclui a própria cidade e seus mecanismos de exclusão.


Ser mãe, universitária ou não, é, portanto, nadar contra a corrente.




 
 
 

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