Eu estou exausta - uma reflexão sobre ser mãe de família.
- Sofia Miranda

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Muitas vezes eu queria deixar a carga da maternidade no chão, como uma mochila pesada que a gente tira das costas no fim de uma viagem longa. Sentar no sofá chorar toda culpa que se contorce diariamente dentro do meu peito junto com todo luto da mãe que não fui e jamais serei porque ela só existia na minha idealização. Me limpar e seguir uma nova caminhada. Me deixar ser apenas mulher, eu que aprendi a deixar de ser menina enquanto aprendia a acalentar choros e a amamentar.
Queria, eu, poder dizer: chega, isso não é "pra" mim. Mentiria se dissesse que esse pensamento não me vem à mente diariamente. Mentiria se não tivesse já planejado isso inúmeras vezes. Quando digo a clássica frase “um dia eu vou sumir e aí vocês vão sentir falta”, num lampejo de desespero, não é como se isso surgisse do nada. Ela vem carregada, vem pesada, vem com dor e vai com mais culpa do que veio.
E por que eu não vou embora?
Por que eu não arredo o pé?
Porque "pra" mim é caro fazer parte e ver esses meninos crescerem. E como crescem depressa. O clichê é real: os dias são longos e os anos são curtos. Queria eu poder participar com mais leveza, mais serenidade, menos cobrança, ser menos chata e vivenciar nossa trajetória com mais repouso.
Às vezes imaginando, com meus botões, eu queria ser tia: poder estar pertinho, mas não ter a responsabilidade imensa de guiar esses meninos nesse mundão tão grande e tão cruel. Daí eu lembro que além de ser impossível se não fosse através de mim eles não estariam aqui "pra" eu poder conhecê-los.
E como é bom conhecê-los! Como é bom ver seus rostinhos, suas mãozinhas, saber seus gostos, suas dificuldades, seus trejeitos, suas brincadeiras, enfim como é especial ver pedacinhos de mim sendo tão autênticos. Até no que parecemos somos diferentes porque a vida é assim: plural e singular ao mesmo tempo, a contradição inata de estar vivo. Eles sempre me lembram disso.
Eu sou Só Sofia, Vicente é Vicente, Arthur é Arthur, mas nunca seríamos quem somos se não fossemos nós. E é por isso que eu não arredo o pé. Por mais pesada que seja a mochila, e é, a vista dessa íngreme escalada é linda. Sigamos unidos, que um dia eles também possam entender e querer isso tanto quanto eu, mas aí é com o futuro e o que eu tenho em minhas mãos são as duras e brilhantes sementes do presente.
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Sua escrita é linda, limpa e muito bem elaborada. Há uma força sua nela, mas também uma abertura de alma funda.
Achei bonito e interessante como você desloca a questão do ser mulher: em vez de aparecer como uma identidade maior ou acabada, ela surge quase como algo interrompido, comprimido, menor, no bom sentido, diante da explosão do ser mãe.
Fiquei com a sensação de que, no seu texto, o ser mãe não está simplesmente contido no vir a ser mulher. Ele parece abrir outra camada de existência, quase um ente novo, à parte, contraditório, exausto, amoroso e irreversível. Como um devir-mãe que reorganiza tudo por dentro. E que talvez justamente por isso, seja potente para reorganizar o vir a…