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A psicanálise e o discurso sobre a mãe: o que o escândalo francês denuncia sobre psicanálise, discurso e poder

Na França existe uma instituição pública independente encarregada de avaliar cientificamente e promover as boas práticas dos cuidados de saúde - a Haute Autorité de Santé (HAS). Entre suas proposições está a produção de recomendações que servem como referência para as políticas de saúde no país. As recomendações de boas práticas (RBP) são orientações produzidas por um colegiado para ajudar profissionais de saúde e pacientes a identificar quais cuidados ou tratamentos são considerados mais apropriados em situações clínicas específicas. Seu objetivo é o de melhorar a qualidade e a segurança dos cuidados de saúde. Para a produção do documento, são utilizados métodos sistemáticos como revisões de literatura científica e análise de evidências, e, se porventura a evidência é limitada, recorre-se à formalização de consensos entre especialistas (HAUTE AUTORITÉ DE SANTÉ, 2014).


No dia 12 de fevereiro de 2026, a HAS publicou uma atualização da recomendação de boas práticas no tratamento do autismo. Nessa atualização a instituição assumiu com clareza, a partir de consenso, uma posição em relação ao tratamento do autismo: a não recomendação da psicanálise como prática terapêutica. A justificativa é a de que a abordagem psicanalítica possui um nível insuficiente de evidências que provem sua eficácia. Desde então, um grande debate foi retomado, mobilizando associações de familiares, psiquiatras e, como não poderia deixar de ser, psicanalistas. Não só na França, mas nos países onde a psicanálise tem forte influência.


Voltemos um pouco no tempo, à época da publicação do primeiro relatório. Há pouco mais de uma década, no ano de 2012, a HAS publicou o relatório¹ sobre as boas práticas no tratamento do autismo. O documento foi subsidiado por um parecer² do Comitê Consultivo Nacional de Ética da França como resposta a um pedido de análise ética feita por associações de famílias de pessoas com autismo que criticavam a falta de uma política pública eficaz de acompanhamento adequado para pessoas afetadas pelo transtorno. Quando o relatório foi a público, instaurou-se uma grande crise pública e científica em torno do diagnóstico e tratamento do autismo. O que o relatório revelou − e as organizações e associações em defesa das pessoas do autismo já denunciavam − é que a França estava atrasada em relação a outros países da Europa e dos EUA no reconhecimento e tratamento para o autismo. As queixas estavam relacionadas à falta de diagnósticos precoces, pouca inclusão escolar, institucionalização excessiva e terapias sem evidência científica. O ponto polêmico foi a acusação de que setores da medicina francesa, ligadas à psicanálise, tinham dificuldades em reconhecer e aplicar práticas baseadas em evidências científicas modernas. De acordo com o relatório, houve falta de dados científicos para avaliar a relevância de tratamentos baseado em abordagem psicanalítica e, na ausência de consenso devido à divergência de opiniões coletadas entre especialistas, não foi possível concluir sobre a relevância da prática da psicanálise.

Ademais, outro dado foi bastante relevante para justificar a não recomendação e acirrar as discussões: o documento argumentava que a maneira como a mãe é concebida pela psicanálise nos casos de autismo não seria produtiva na abordagem terapêutica desses casos, pelo contrário, pioraria o prognóstico, pois contaminaria as relações entre profissionais e pais, culpando-os, especialmente as mães. A crise francesa ficou conhecida como “a batalha do autismo” e “o escândalo francês”.


É importante lembrar que, por questões históricas, a França é fortemente atravessada pelas ideias psicanalíticas, e os campos da saúde e da assistência social são altamente influenciados por elas. Assim, médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais trabalham orientados por algumas dessas teorias, muitas vezes, ultrapassadas.


Vamos a elas. No início do século XX, o transtorno hoje conhecido como autismo era considerado uma psicose infantil. Nos anos 40, o psiquiatra Leo Kanner observou que as crianças com esse transtorno tinham pais incapazes de se envolverem afetivamente, tradando-as com certa frieza. Ainda que tenha feita apenas uma correlação e não uma afirmação de causalidade, o estrago já tinha sido feito e, depois de Kanner, as mães de crianças autistas ficaram conhecidas como “mães geladeira”. Anos mais tarde, o psicanalista Bruno Bettelheim reforçou e popularizou a ideia das mães “frias” em seu livro intitulado “A fortaleza vazia” (1987). Já os lacanianos, um pouco mais depois, sustentados pela teoria de Jacques Lacan, em que a criança é tomada como falo imaginário da mãe (Lacan, 1995), propunham construções teóricas que entendem a figura da mãe como uma espécie de “crocodilo” (Lacan, 1992, p.112), “insaciável” (Lacan, 1995, p. 182) e ávida por devorar o filho-falo. Daí, inclusive, adviria a necessidade da figura do pai (simbólico), na forma da metáfora paterna, que teria a função de ser um operador a impedir esse devoramento, na medida em que se colocaria entre (o desejo d) a mãe e a criança, livrando-a, portanto, de ser aprisionada pelas malhas ilimitadas do desejo materno. Um exemplo inequívoco e acessível dos efeitos dessa teorização pode ser visto no documentário francês The Wall: a psicanálise posta à prova para o autismo, de 2011, da diretora Sophie Robert, que tem o mérito de mostrar como o que se enuncia de um conceito ‒ no caso, o da mãe ‒ pode enviesar a leitura de mundo ‒ no caso, o da gênese do autismo.


Ao final, o que o relatório deixou claro é que, de uma forma ou de outra, os teóricos ligados à psicanálise costumavam relacionar o autismo a uma falha na relação primária com a mãe. Dessa forma, se a compreensão etiológica do transtorno está baseada na relação mãe-bebê, seja por sua falta, seja pelo seu excesso, cria-se uma cultura acusatória que determina a figura da mãe como a causa do problema. O importante a ser destacado é: se por meio de ecolalias conceituais deturpadas ou se pelos efeitos da vulgarização da psicanálise, é inegável que as teorias psicanalíticas contribuíram para a criação de gerações de mães culpadas e de famílias desorientadas em relação a qual tratamento procurar para os filhos.


Mudança Epistemológica

A publicação do relatório e a mudança de estatuto da psicanálise no quadro de terapêuticas do autismo provocou uma mudança epistemológica e nosológica, e teve como consequência, nas palavras do filósofo Francis Wolf, uma “guinada ética” (WOLF, 2012, p.256), comemorada por muitas famílias e mães, dentro e fora da França. Uma delas está no Brasil. Autora de um blog³ muito conhecido sobre questões relacionadas à maternidade e ao cuidado com crianças autistas, essa mãe mantém em sua plataforma duas reportagens especialmente direcionadas a falar da prática psicanalítica nos casos de autismo. Sob os títulos “Autismo: por que fugir da psicanálise” e “Autismo, psicanálise e a culpabilização materna”, ela não poupa críticas à teoria e diz que hoje trabalha para difundir a ideia de que ser mãe já é suficientemente difícil para se acreditar que se é responsável por cada fator da vida do filho, inclusive, os relativos ao “desenvolvimento cognitivo e neurológico” (BONOLI, 2012), em uma clara referência (contra) às teorias psicanalíticas, que atribuem o aparecimento do transtorno a uma falha na relação inicial da mãe com a criança. A mãe e autora do blog encontrou no novo paradigma do discurso neurobiológico legitimidade para se sentir menos culpada por anos de uma cultura (psicanalítica?) acusatória, o que é perfeitamente compreensível.


É correto afirmar que a psicanálise tem dificuldades em reconhecer aspectos biológicos e genéticos na etiologia do autismo, e isso acontece porque para ela, a etiologia de um sintoma, está relacionada a outra dimensão. O que faz um sujeito não é sua biologia, mas sua relação com o campo da linguagem, com os outros que o cercam. É delicado não pressupor que o desamparo inicial inerente a todo bebê humano ‒ “fraco, inacabado e incapaz de resistência” (FREUD, 1938[1940] /2018, p. 242) ‒ e sua total dependência de outro ser humano não seja levada em consideração na etiologia das afecções psíquicas. É, inclusive, no contexto desse drama, inescapável a todos nós, que pode ser compreendida a famosa frase freudiana “[…] o desemparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” (FREUD, 1950[1895] /1990, p.431). A relevância do conceito de desamparo (Hilflösigkeit), contudo, não determina

que alguém deva ser culpado pelo que das suas vicissitudes dessa condição pode advir. O psíquico é um jogo onde o imponderável é sempre o determinante.


O cenário no qual a psicanálise reinou, influenciando gerações de profissionais da saúde no que se refere à assistência ao autismo, só começou a mudar com o avanço das pesquisas no campo das neurociências, que oferecem – e não cessam de oferecer, pois não há consenso sobre a etiologia – outras explicações para o aparecimento do transtorno. Se hoje ainda não se sabe a causa exata e tampouco seu tratamento efetivo, o relevante nesse caso está no fato de que o autismo teria deixado de ser considerado um transtorno de base relacional (mais especificamente entre mãe e bebê) para ser reconhecido, quase unanimemente, como uma perturbação do desenvolvimento neurológico. Nesse ponto encontramos a mudança epistemológica, problematizada por Wolf (2012), que vale a pena mencionar.

O autor propõe uma reflexão sobre as recentes transformações na maneira como compreendemos o ser humano. Um dos eixos centrais do argumento está na passagem do que seria a concepção “estrutural” do homem para a concepção “neuronal” do homem. Para o autor, o homem estrutural é pensado como um ser de linguagem, inscrito em estruturas simbólicas, portanto, sobredeterminado por instâncias inconscientes. A referência não é o cérebro, a biologia, mas a estrutura, os sistemas simbólicos que o precedem e o organizam: a linguagem, o parentesco, a mitologia individual e coletiva, o inconsciente, o discurso. É a figura de homem da psicanálise. Já o homem neuronal, epistemologicamente diferente, emerge a partir do final do século XX, com o avanço das neurociências e das tecnologias de imagem cerebral. Aqui, o humano passa a ser compreendido de outra forma: um produto do cérebro, um conjunto de processos neuronais, resultado de circuitos bioquímicos. A linguagem e a subjetividade passam a ser interpretadas como efeitos da atividade cerebral. É o homem das neurociências.


No paradigma do homem estrutural, o homem emerge das relações, dos jogos simbólicos e, portanto, não há primazia de uma relação direta entre causa e efeito. No paradigma do homem neuronal, ao contrário, predomina a lógica da relação causal e direta. Ora, se o homem do qual a psicanálise se ocupa é o homem da estrutura, das relações inconscientes e das sobredeterminações, como é possível sustentar que os pais ou, ainda pior, uma única pessoa ‒ a mãe ‒ seja a responsável pela (bem ou má sucedida) condição psíquica de um filho? Como pode a psicanálise ser reconhecida, justamente, por agir contrariamente ao que preconiza sua epistemologia? Ainda que nunca se tenha lido em um texto psicanalítico que uma mãe é a responsável direta por uma afecção psíquica de um filho, quais linhas de forças possibilitaram a emergência desse discurso? O que produz sua manutenção e permanência? Afinal, 14 anos se passaram desde a publicação do primeiro relatório e sua atualização e, em relação à crença da responsabilidade materna, pouco ou nada mudou na cultura psicanalítica.


Discurso, verdade, disputa e poder

A querela entre psicanálise e autismo sempre gera muita repercussão e um dos motivos, sabemos, é o fato de haver interesses políticos e mercadológicos envolvidos na difamação de sua prática ‒ no próprio caso francês, há uma disputa por verbas públicas endereçadas às instituições de tratamento, tanto as praticantes quanto as contrárias à psicanálise. Não obstante, é preciso jogar luz no fato de que, a despeito dos interesses contra a criação freudiana, as críticas se fundam nos efeitos do seu discurso, o qual atribui demasiada responsabilidade à mãe em níveis estruturais.


Nesse ponto, é crucial lembrar que o discurso é um campo de ação e disputa, produtor de saber e verdade, não apenas um meio de expressão (FOUCAULT, 2014). Nas palavras de Foucault (2012), “os discursos devem ser tratados como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam”. Talvez seja necessário, como psicanalistas, nos perguntarmos o quanto as teorias psicanalíticas sobre a mãe não fazem parte de uma gama de “procedimentos concretos de objetivação discursiva e de investimento tático do poder sobre os corpos e sobre a forma mesma de ser sujeito-mãe” (MARCELLO, 2004, p. 202).


É nesse sentido que se deve apontar, tal como fez o relatório, para os efeitos lesivos da obstinação de alguns representantes da psicanálise em se manterem aferrados a um arranjo teórico que foi inapelavelmente contaminado por uma posição política e pré-teórica que se mantém como raízes sob seu solo epistêmico (CORDEIRO, 2019).


Notas:

  1. https://handicap.gouv.fr/IMG/pdf/argumentaire_autisme_ted_enfant_adolescent_interventions.pdf

  2. Parecer de número102, em novembro de 2007

  3. Cf. BONOLI, A. Autismo, psicanálise e a culpabilização materna. Lagarta Vira Pupa, 15 mai. 2012. Disponível em: <https://lagartavirapupa.com.br/autismo-psicanalise-e-a-culpabilizacao-materna>. Acesso em: 10 jan. 2019.


Referências

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Paulo: Editora Martins Fontes, 1987.


BONOLI, A. (2012) Autismo, psicanálise e a culpabilização materna. Lagarta Vira

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psican%C3%A1lise-e-a-culpabiliza%C3%A7%C3%A3o-materna Acesso em: 01 mar.

2026.


CORDEIRO, Ana Paula Lucena. Admirável Maternidade nova: questões para a

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FREUD, S. (1938) Uma amostra do trabalho psicanalítico. In: ______. Obras

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FREUD, S. (1895) Projeto para uma psicologia científica. In: ______. Edição standard

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FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária,

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HAUTE AUTORITÉ DE SANTÉ (HAS). Méthodes d’élaboration des

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LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Tradução de Ari

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LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: A relação de objeto (1956-1957). Texto

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MARCELLO, Fabiana de Amorim. O conceito de dispositivo em Foucault: mídia e

produção agonística de sujeitos-maternos. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 29,

n. 1, p. 199-213, jan./jun. 2004. Disponível em:

mar. 2026.


WOLF, F. Nossa humanidade: de Aristóteles às neurociências. São Paulo: Editora

Unesp, 2012.



Como referenciar o artigo:


LUCENA, Ana Paula. A psicanálise e o discurso sobre a mãe: o que o escândalo francês denuncia sobre psicanálise, discurso e poder. Núcleo Materna, 23 mar. 2026. Disponível em: <inserir link aqui>. Acesso em: <inserir dia mês ano>.

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