top of page

Ser Mulher e Ser Mãe: O Conflito

"Primeiro há de se entender que o sistema no qual vivemos não admite que se possa ser mãe e mulher ao mesmo tempo, e quando digo mulher, incluo nossas aspirações profissionais, pessoais, nossos ideais de vida. Não à toa é tão difícil para a mulher-mãe fazer coisas simples como, por exemplo, se locomover pela cidade, ir a uma biblioteca e comer no seu restaurante preferido junto ao seu filho. (...)"

Li um relato de uma mãe de gêmeos que desenvolveu depressão pós-parto, ela se questionava o porquê de ninguém nunca tê-la alertado sobre como a maternidade poderia ser massacrante, dizia que antes dos bebês nascerem ela tinha uma visão muito diferente da maternidade, que tudo se transformou em muito pouco tempo e que se sentia culpada por não conseguir ser a mãe "poderosa" da qual estava acostumada ver outras mulheres serem.

Costumo dizer que antes da maternidade, ainda no período da gestação, somos bombardeadas por idealizações da maternidade que fogem do real, as metas e idealizações são tão rasas que, pensarmos nisso após os filhos nascerem, chega a ser um pouco cômico, se não trágico.

As pessoas ao nosso redor voltam a atenção para aquela criaturinha que está dentro do nosso ventre e a mãe em si já começa pelo processo de anulação que irá se perpetuar por um longo período de tempo. Às vezes dura a vida toda. Dizem que devemos nos preocupar com o sexo do bebê, com a cor do quarto do bebê, com os brinquedos do bebê... coisas que são totalmente dispensáveis quando nos deparamos com a maternidade real. Temos a impressão que ninguém se preocupa em como a mãe e o pai estão psicologicamente, se estão preparados e preocupados com a mudança na vida deles, que ninguém diz a mãe o quão dolorosa pode ser a amamentação, que ninguém diz que muitas vezes os amigos se afastam e que talvez o sentimento "natural" demore um pouco pra se desenvolver, porque talvez ele não seja tão natural assim...¹ E principalmente, que ninguém diz que existe um conflito² entre o ser mulher e o ser mãe e que, a partir do momento que você se torna mãe, as suas aspirações de mulher serão abaladas de forma significativa.

Lembro-me de quando minhas filhas nasceram, também sou mãe de gêmeos assim como a mãe do relato dessa publicação, antes do parto me senti poderosa. Senti que poderia abraçar o mundo, pensei que poderia ser a mulher que queria ser e ainda cuidar de dois bebês, da casa, do marido. Todo um engano baseado na idealização da maternidade e do casamento da qual somos bombardeadas. Quando a realidade bateu a porta, eu não estava preparada.

É importante que seja dito que existe sim um movimento de viés feminista que se preocupa e se debruça sobre a temática materna, que trabalha a maternidade para além da maternidade idealizada, um movimento que identifica e critica as estruturas de poder que agem sobre os corpos femininos. Esse movimento feminista trabalha como força contrária aos sistemas de poder hegemônicos, sistemas estes que, por serem muito bem estruturados, muitas vezes fazem com que os trabalhos de resistência se deem de forma lenta, que sejam invisibilizados e que tenham pouca aplicabilidade. Estes são trabalhos extremamente relevantes e que não devem ser menosprezados.

Primeiro há de se entender que o sistema no qual vivemos não admite que se possa ser mãe e mulher ao mesmo tempo, e quando digo mulher, incluo nossas aspirações profissionais, pessoais, nossos ideais de vida. Não à toa é tão difícil para a mulher-mãe fazer coisas simples como, por exemplo, se locomover pela cidade, ir a uma biblioteca e comer no seu restaurante preferido junto ao seu filho. Esses espaços, em sua maioria, não estão preparados estruturalmente para receber a mulher-mãe, pois segundo a lógica patriarcal que atua sobre todas as mulheres e a lógica da reprodução do espaço capitalista - que inclui a divisão sexual do trabalho -  as mulheres deveriam ocupar os espaços reprodutivos, o espaço privado. Esses sim seriam espaços alinhados ao “papel social” da mulher e mais especificamente da mulher-mãe. O espaço reprodutivo é o espaço do lar, dos cuidados com a prole e dos trabalhos domésticos.

Também não é à toa que é tão difícil para as mulheres-mães permanecerem ou até acessarem os espaços institucionais, a exemplo das universidades, que são espaços de produção de conhecimento que não se encaixariam com os papéis reprodutivos designados à mulher-mãe, e que por muito tempo não se encaixavam nem aos papéis femininos, independente da maternidade.

Devemos questionar a lógica da qual esses espaços se produzem e qual a importância dos papéis de gênero nessa construção, o espaço urbano também é construído através das práticas sociais, como reflexo e condicionante social (CORRÊA, 2002) e como condição, meio e produto da realização da sociedade humana em toda a sua multiplicidade (CARLOS, 2001). Falar sobre como o espaço urbano é construído, a forma em que as relações de gênero constituem um processo da sociedade contemporânea determinante nas distribuições espaciais e na configuração do espaço social (REIS, 2015) e de como suas instituições refletem essa construção através dos suas políticas de acesso e permanência, tudo isso é de suma importância quando falamos sobre o conflito da mulher e da mãe.

Se nós mulheres-mães conseguimos ultrapassar esse conflito, ou quase conseguimos, é porque nós arrombamos a porta, resistimos, muitas vezes em detrimento da nossa saúde psicológica e física. Nós fazemos isso por muitas vezes não admitirmos a existência desse conflito e estamos certas em não admitirmos, pois onde existe poder, existe resistência (FOUCAULT, 1994). As mães, portanto, resistem.

Aí no meio dessa resistência entramos no processo chamado de "múltiplas jornadas", fazemos o papel das atividades reprodutoras e produtoras ao mesmo tempo. Tentamos dar conta da casa, dos filhos, do casamento, dos estudos e do trabalho. Somos chamadas de guerreiras, quando de fato somos sobrecarregadas. O papel dos homens, quando estes são muito bons, é de nos "apoiar" e dividir as tarefas de casa e das crianças. A carga mental eles não carregam, essa carga é só nossa. Os julgamentos morais eles não carregam, são só nossos. Pelo contrário, eles carregam um caminhão de biscoito por fazerem o mínimo, ou apenas o certo. E acredite, até os homens muito bons em sua maioria se tiverem em cheque entre o trabalho e as funções de casa, escolherão o trabalho e deixarão a mulher cumprir o "papel" dela de cuidar de todo o trabalho reprodutivo sozinha. Já os ruins quando se depararem com a realidade vão fugir sem olhar pra trás, pagarão uma pensão irrisória, quando pagarem, e a mulher que se vire sozinha, eles estão justificados pelo ideário social.

Narrei tudo isso para dizer que em todas as situações a mulher sai perdendo e que essa crítica que passa pela maternidade idealizada para alcançar a maternidade real, muitas vezes não consegue chegar até a nós. Neste conflito não tem como a mulher sair ganhando e este é o ponto. O sistema patriarcal sempre vence, a mulher pode perder mais ou menos de acordo com as intersecções que a atinge, e aqui falamos das intersecções de raça e classe, mas o sistema capitalista e patriarcal continua ganhando, mesmo que tenhamos a falsa impressão que não seja bem assim.

É importante olharmos para a maternidade com menos hedonismo e nos atentarmos mais a realidade, olharmos mais para as mães da vida real, nossas amigas, nossas mães, nossas avós, e menos para toda essa maternidade midiática de capa de revista, comercial de margarina e os discursos das instituições, estruturadas nesse sistema de saber e poder² e que moldam a nossa percepção da maternidade e do casamento.

É importante que questionemos os espaços em que a maternidade se encaixa, ou não, e construirmos essa crítica. E tendo feito isso, nos organizarmos e agirmos rumo à conscientização da maternidade real para além de resistirmos, coisa que as mulheres já fazem há séculos, mas partirmos também rumo à mudança real, que não se dará sem abalarmos toda essa estrutura que nos rege.

¹Elisabeth Badinter discorre sobre a natureza do amor materno em sua obra publicada em 1985 “Um Amor Conquistado: o mito do amor materno”

² Elisabeth Badinter traz o conceito de conflito em sua obra publicada em 2010 “A Mulher e a Mãe: o conflito”

³ Foucault aborda em sua obra “Arqueologia do Saber” a relação entre saber e poder

REFERÊNCIAS:

BADINTER, Elisabeth. B126a. Um Amor Conquistado: o mito do amor materno. Elisabeth Badinter; tradução de Waltensir Dutra. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

BADINTER, Elisabeth. B126c. O Conflito: a mulher e a mãe. Elisabeth Badinter; tradução de Véra Lucia dos Reis. Rio de Janeiro: Record, 2011.

CARLOS, A. F. A. Espaço-Tempo na Metrópole. São Paulo: Contexto, 2001. 368p.

CORRÊA, R. L. O espaço urbano. São Paulo: Ática, 2002.

REIS, M. L. Estudos de Gênero na Geografia: uma análise feminista da produção do espaço. E&C, v.38, p.11-24, 2015.

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FOUCAULT, M. A Arqueologia do saber. Michel Foucault; tradução de Luiz Felipe Baeta Neves, -7ed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. 


Sobre a autora: 

Gostaria de publicar o seu artigo nas colunas do Núcleo Materna?

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram
  • YouTube ícone social
bottom of page