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Shakira não me representa!

Meu nome é Adriana, sou professora, graduanda de História/ UERJ, desde 2023 atuo

em prol da pauta materna universitária. Esta é a minha história, mas poderia ser de

tantas outras manas...


Fui casada durante 20 anos. Me divorciei há 6 anos e, desde então, as responsabilidades

financeiras, sociais, médicas e educacionais com minha filha mais nova, ficaram

exclusivamente comigo. Tenho também outra filha que fará 19 anos, que amo demais,

mas tivemos nossa relação afetada pela violência vicária. Esta mora com o pai.


Muitas pessoas entendem que a maternidade solo não se dá apenas pelo aspecto

financeiro, mas afetivo, emocional e cultural, pois um casal hétero, por exemplo, pode

fazer a seguinte divisão de tarefas: o homem banca o sustento família e a mulher os

cuidados. Dentro de uma lógica capitalista e patriarcal isso é tão natural quanto

inquestionável. Neste modelo, a mulher se sente extremamente sobrecarregada, mas

ainda assim, não é uma maternidade solo (isso é difícil até mesmo para minha própria

compreensão) apesar da solidão e sobrecarga iminentes ali.


Mães solo tomam decisões, na maioria das vezes, diante de um precipício, com uma

faca apontada para as costas. O peso do mundo é diferente para nós. Quando temos

sorte, conseguimos construir redes de apoio pelo caminho. Algumas ajudas são fixas,

outras pontuais, outras de desconhecidos ou pessoas que não esperamos ou,

simplesmente, esse auxílio não aparece. Depende da circunstância, do local... Fato é

que, depender dos outros é muito complicado. Isso não tem haver com autossuficiência,

ou orgulho, mas em reconhecer que pessoas também tem seus problemas, seus afazeres,

e que nossa autonomia é de extrema importância para a nossa felicidade e bem-estar.


Certa vez minha filha mais nova me perguntou o que aconteceria se estivéssemos

sozinhas e eu passasse mal na rua. Confesso que tive pavor só de pensar nisso. De

imediato, me imaginei nessa situação com ela. Foi inquietante constatar que poderia

depender da sua sagacidade e inteligência mesmo no auge dos seus 6 anos. Na hora

disse: “-- Filha, precisa saber duas coisas básicas: Meu celular e nosso endereço. Tenha

sempre essas informações em mente, saiba onde e a quem pedir ajuda...” E se realmente

acontecer alguma coisa comigo de forma definitiva? Como, com quem fica minha

filha?! Paraliso só de imaginar.


Não largar a mão dela, não conseguir relaxar 100% em um passeio. Tirar os olhos dela?!

Em hipótese alguma.


Ultimamente tenho me questionado como o pensamento e forma de agir de uma mãe

solo são influenciados pela pressão social, cultural e econômica em que vive. Preciso

ser mais forte do que as mulheres que possuem redes de apoio. Esse sentimento acaba

sendo a base do meu maternar por uma questão de sobrevivência.


Mesmo com alguns avanços no que tangem leis e políticas públicas voltadas para a

maternidade como um todo, mães solo ainda não estão sendo observadas em toda a sua

complexidade e particularidades. Deveriam todas as maternagens serem vistas de forma

equânime e igualitária? Imagino que não. Acabei de assistir a defesa de um TCC de uma

companheira na UERJ. Sua família estava reunida: mãe, filhas, marido e alguns amigos.


Na hora senti um misto de alegria e tristeza profundo, pois por mais que lutemos pela

mesma causa, partimos de lugares opostos e extremos. Outros fatores também entram

em jogo como idade, disponibilidade/ carga horária de trabalho...

Será que conseguirei me formar? Como? Quando? Para que eu possa me dedicar

minimamente aos estudos, precisarei cortar um membro do corpo, que mesmo me

dilacerando, me sustenta. A dupla regência.


Detentora de um corpo negro, no decorrer de toda a minha vida passei por diversos

tipos de violência: violência doméstica (todos os estágios e todas as violências dentro do

casamento), gaslighting, violência obstétrica, institucional, racismo, estupro. Quando o

Estado aponta como solução única que o pai da criança tenha que arcar com pensão

alimentícia, se eximindo de qualquer responsabilidade nisso, muitas vezes, mantém ou

reforça o vínculo com o agressor desta mulher, mesmo que seja um direito da criança. O

direito de escolha deveria ser da mãe. No meu caso, abri mão pela minha paz.


Tendo-se em vista que a maternidade solo é mais cruel com mulheres negras, de baixa

renda, onde fatores de raça, classe e gênero são definidores entre o bem viver e a

sobrevivência cotidiana, digo em alto e bom som: SHAKIRA NÃO ME

REPRESENTA!

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