Shakira não me representa!
- Adriana Pereira

- 22 de mai.
- 3 min de leitura
Meu nome é Adriana, sou professora, graduanda de História/ UERJ, desde 2023 atuo
em prol da pauta materna universitária. Esta é a minha história, mas poderia ser de
tantas outras manas...
Fui casada durante 20 anos. Me divorciei há 6 anos e, desde então, as responsabilidades
financeiras, sociais, médicas e educacionais com minha filha mais nova, ficaram
exclusivamente comigo. Tenho também outra filha que fará 19 anos, que amo demais,
mas tivemos nossa relação afetada pela violência vicária. Esta mora com o pai.
Muitas pessoas entendem que a maternidade solo não se dá apenas pelo aspecto
financeiro, mas afetivo, emocional e cultural, pois um casal hétero, por exemplo, pode
fazer a seguinte divisão de tarefas: o homem banca o sustento família e a mulher os
cuidados. Dentro de uma lógica capitalista e patriarcal isso é tão natural quanto
inquestionável. Neste modelo, a mulher se sente extremamente sobrecarregada, mas
ainda assim, não é uma maternidade solo (isso é difícil até mesmo para minha própria
compreensão) apesar da solidão e sobrecarga iminentes ali.
Mães solo tomam decisões, na maioria das vezes, diante de um precipício, com uma
faca apontada para as costas. O peso do mundo é diferente para nós. Quando temos
sorte, conseguimos construir redes de apoio pelo caminho. Algumas ajudas são fixas,
outras pontuais, outras de desconhecidos ou pessoas que não esperamos ou,
simplesmente, esse auxílio não aparece. Depende da circunstância, do local... Fato é
que, depender dos outros é muito complicado. Isso não tem haver com autossuficiência,
ou orgulho, mas em reconhecer que pessoas também tem seus problemas, seus afazeres,
e que nossa autonomia é de extrema importância para a nossa felicidade e bem-estar.
Certa vez minha filha mais nova me perguntou o que aconteceria se estivéssemos
sozinhas e eu passasse mal na rua. Confesso que tive pavor só de pensar nisso. De
imediato, me imaginei nessa situação com ela. Foi inquietante constatar que poderia
depender da sua sagacidade e inteligência mesmo no auge dos seus 6 anos. Na hora
disse: “-- Filha, precisa saber duas coisas básicas: Meu celular e nosso endereço. Tenha
sempre essas informações em mente, saiba onde e a quem pedir ajuda...” E se realmente
acontecer alguma coisa comigo de forma definitiva? Como, com quem fica minha
filha?! Paraliso só de imaginar.
Não largar a mão dela, não conseguir relaxar 100% em um passeio. Tirar os olhos dela?!
Em hipótese alguma.
Ultimamente tenho me questionado como o pensamento e forma de agir de uma mãe
solo são influenciados pela pressão social, cultural e econômica em que vive. Preciso
ser mais forte do que as mulheres que possuem redes de apoio. Esse sentimento acaba
sendo a base do meu maternar por uma questão de sobrevivência.
Mesmo com alguns avanços no que tangem leis e políticas públicas voltadas para a
maternidade como um todo, mães solo ainda não estão sendo observadas em toda a sua
complexidade e particularidades. Deveriam todas as maternagens serem vistas de forma
equânime e igualitária? Imagino que não. Acabei de assistir a defesa de um TCC de uma
companheira na UERJ. Sua família estava reunida: mãe, filhas, marido e alguns amigos.
Na hora senti um misto de alegria e tristeza profundo, pois por mais que lutemos pela
mesma causa, partimos de lugares opostos e extremos. Outros fatores também entram
em jogo como idade, disponibilidade/ carga horária de trabalho...
Será que conseguirei me formar? Como? Quando? Para que eu possa me dedicar
minimamente aos estudos, precisarei cortar um membro do corpo, que mesmo me
dilacerando, me sustenta. A dupla regência.
Detentora de um corpo negro, no decorrer de toda a minha vida passei por diversos
tipos de violência: violência doméstica (todos os estágios e todas as violências dentro do
casamento), gaslighting, violência obstétrica, institucional, racismo, estupro. Quando o
Estado aponta como solução única que o pai da criança tenha que arcar com pensão
alimentícia, se eximindo de qualquer responsabilidade nisso, muitas vezes, mantém ou
reforça o vínculo com o agressor desta mulher, mesmo que seja um direito da criança. O
direito de escolha deveria ser da mãe. No meu caso, abri mão pela minha paz.
Tendo-se em vista que a maternidade solo é mais cruel com mulheres negras, de baixa
renda, onde fatores de raça, classe e gênero são definidores entre o bem viver e a
sobrevivência cotidiana, digo em alto e bom som: SHAKIRA NÃO ME
REPRESENTA!
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