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Qual é o sentido de sermos mães?

Muitas mulheres acumulam responsabilidades com os filhos, a casa, a família e o trabalho, sendo, em muitos casos, também responsáveis pelo sustento financeiro do lar. No final do dia, o resultado dessa equação parece ser quase sempre o mesmo: a persistente sensação de estar em falta, de nunca conseguir fazer o suficiente.


Vendo por este ângulo, parece fazer sentido a famosa frase de que ser mãe é padecer no

paraíso: assim é a maternidade, isso é ser mãe, viver neste turbilhão de conflitos, pressões e obrigações, e lidar com a constante sensação de estar em falta, o que leva, em muitos casos, à incorporação da culpa e do fracasso individual que poderiam ser traduzidos como “eu não sou capaz” de cuidar bem das crianças, de ser uma profissional competente, de cuidar das pessoas que amo, de cuidar de mim mesma, etc. A vivência da maternidade deste modo estaria mais para sinônimo de cansaço e frustração do que uma experiência que tenha espaço considerável para uma vida com algum sentido.


Já não podemos romantizar a maternidade, porém, por outro lado, não podemos endossar o padecimento materno, ou como dizem, naturalizar o cansaço. Essa outra forma não romantizada de compreender a maternidade, na qual a função materna é encarada naturalmente como uma obrigação da mulher, apresenta-se como uma perspectiva de vida dolorida que elimina as esperanças e as possibilidades de outros modos de ser que poderiam surgir ou que poderiam ser objeto de luta para mudanças significativas nas vidas de mulheres mães.


O que quero dizer aqui é que tomar a maternidade tanto no modo romantizado quanto

penoso encerram as nossas possibilidades de viver a maternidade e encontrarmos um sentido em nossas vidas. Quem sabe, e essa noção me agrada mais do que partir ideias pré-concebidas do que quer que seja necessário para desempenhar uma “boa” maternagem, podemos pensar que existem outros arranjos possíveis de cuidar de nossas crianças que poderiam tornar essa tarefa mais significativa, formas em que nós mulheres não tivéssemos que corresponder às expectativas dos outros, principalmente, quando são irreais e desumanas ou que devêssemos seguir uma determinada cartilha que nos diga “ser mãe é isso”.


Se, ao invés de nos submetermos à cartilha da boa mãe ou cedermos às pressões alheias – às vezes, oriundas de nossa própria rede de apoio, pudéssemos tentar transformar a maternidade em algo com sentido? Será que a maternidade poderia ser parte de um projeto de vida que vale a pena ser vivida? O que deveria permanecer ou ser transformado para concretizar este projeto?


De fato, é importante ressaltar aqui que para algumas mulheres, junto com a maternidade, pode vir um grande arrependimento, cabendo a nós compreender que não existe sentimento adequado ou inadequado para uma mulher mãe, já que sentimentos positivos e negativos, de todo o tipo, podem aparecer e merecem todo nosso acolhimento e entendimento neste momento. Para essas mulheres, a maternidade pode simplesmente não fazer sentido algum e o desafio pelo qual possam passar é o de acomodar esse paradoxo do arrependimento em suas vidas.


Podemos refletir que viver uma vida que vale a pena é um constante aprendizado, uma tarefa árdua. Penso que seja uma tarefa árdua porque muitas vezes não sabemos muito bem o que estamos buscando e simplesmente passamos a viver de acordo com os padrões de nossa cultura e de outras pessoas, estes que talvez não correspondam àquilo que realmente importa para a gente. Podemos nos orientar a partir de valores dos nossos pais, de marido, de amigos, etc. A vida que vale a pena também é uma tarefa árdua, pois aquilo que imaginamos ser importante para nós, nem sempre é o que de fato nos importa na prática. Isso acontece porque só podemos saber como algo realmente nos afeta quando vivenciamos essa experiência.


Nós, humanos, não somos muito bons ou capazes de prever o futuro, controlando tudo o que pode acontecer. Nós podemos escolher caminhos, colocamos nossas fichas e expectativas nesta escolha, mas o resultado pode ser muito diferente do imaginado. Desse modo, escolher o aprendizado da vida que vale a pena é assumir alguns riscos e conflitos consigo mesmo ou com as outras pessoas, o que traz uma dose de angústia e sofrimento, de modo que podemos concluir que no caminho que se percorre para viver uma determinada vida, pode existir algum tipo de desconforto.


Na maternidade, esse tema é ainda mais complicado, pois existe uma pressão social para que ela seja exercida de um jeito que muitas vezes não nos permite alternativas. Quando nos tornamos mães, percebemos que quase todo mundo tem um saber, um palpite, de como devemos ser e o que devemos fazer, desde o vizinho até as revistas sobre educação. E parece, ao mesmo tempo, que só existe espaço para um tipo de mãe, de um tipo de sentimento materno, de um tipo de cuidado e educação.


Nesse sentido, quando nos empenhamos em conduzir a maternidade a partir daquilo que importa para nós, fazendo as nossas próprias escolhas, corremos o risco, o tempo todo, de decepcionar alguém e, o que considero mais difícil, corremos o risco de errar sob ameaça constante de olhares vigilantes que não perderão a oportunidade de nos apontar os dedos de culpa. Assim, mais difícil do que o erro em si, do que assumir a responsabilidade pelo erro, são as condenações morais sociais: o julgamento. Afinal, qual não seria a maior punição do que aquela na qual qualquer desvio negativo que uma criança venha a apresentar é culpa da mãe? Como é possível permitir-se o erro nesses termos?


Talvez para alcançarmos uma maternidade como um projeto de vida com sentido, a gente tenha que dar espaço para a frustração, para não ser perfeita para os outros e para nós mesmas, para tentarmos ser livres para elaborarmos outras formas de viver ou, pelo menos, que possamos aprender outras formas. Aprender a viver uma vida de sentido é um processo que requer reflexão e questionamento sobre o que é justamente esse viver, sobre o que estamos buscando para as nossas vidas e com base em que valores. É aquela forma de viver na qual podemos experimentar, errar e acertar, e fazer acontecer assumindo alguns riscos e, talvez, desprazeres.


Muitas vezes, teremos de dizer aos outros o que queremos e como queremos. Essa forma de maternar, assim como o viver de uma determinada maneira, pode, então, tornar-se um objeto de reflexão e de questionamento, afinal o que significa ser mãe? Como isso importa em nossa vida? Com quais dos nossos outros valores a maternidade compete? Ainda podemos questionar o que é importante no cuidado mesmo das crianças, o que nos importa que elas sejam ou aprendam? Que tipo de relação é importante para mantermos com nossos filhos? Como me afeta a rede de apoio e o que posso fazer em relação a ela? E, a partir destes questionamentos, podemos ir traçando uma determinada forma de maternar, assumindo algumas posições, às vezes, conflitos, que se incorporados, de fato, em nossas vidas, poderá ampliar a nossa possibilidade de uma vida com sentido na maternidade.

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